Blogue

As três tumbas do Apóstolo Santiago

History of the Camino

As três tumbas do Apóstolo Santiago

Compartilhar

  • Facebook
  • X
11-02-2021

Milhares de peregrinos visitam todos os anos o túmulo do Apóstolo na cripta da Catedral de Santiago. Esta é a meta simbólica e espiritual do Caminho de Santiago. O ponto onde convergem as diferentes rotas que atravessam a Europa.

Mas os restos mortais de Santiago Maior nem sempre estiveram sob o altar-mor da basílica compostelana. Na verdade, o corpo do Apóstolo viveu uma verdadeira odisseia que começou na Palestina, atravessou um oceano e permaneceu escondido durante séculos em duas ocasiões.

A primeira ocorreu quando seus discípulos finalmente lhe deram sepultura em terras hispânicas. A segunda, em pleno século XVI, quando se decidiu ocultar as relíquias do Apóstolo diante do temor de um ataque do corsário inglês Drake.

Hoje, convidamos você a uma viagem pela História, seguindo os acontecimentos vividos pelos restos do Apóstolo Santiago até os dias atuais.

Da Palestina à Gallaecia

Segundo a tradição cristã, uma urna de prata guarda, na cripta da Catedral de Santiago, as relíquias do Apóstolo Santiago e seus discípulos, Teodoro e Atanásio. Esse fato transformou Compostela em um dos principais destinos de peregrinação da cristandade desde a Idade Média e deu origem ao grande fenômeno de peregrinação que hoje conhecemos como Caminho de Santiago.

Entretanto, até chegar à atual localização na Catedral, o corpo do Apóstolo passou por diversas "tumbas" e não poucas aventuras.

Como já contamos em outras ocasiões, o rei Herodes Agripa I ordenou a morte de Santiago Maior no ano 44 d.C., na Palestina. O motivo: a pregação da fé cristã.

Antes que fosse sepultado em terras palestinas, a tradição conta que dois de seus discípulos roubaram o corpo e o transportaram de barco para a região onde ele havia anunciado o Evangelho: a distante Gallaecia, na Hispânia.

Durante essa travessia pelo mar Mediterrâneo e pelo oceano Atlântico começou uma aventura que terminaria sob o altar-mor da Catedral de Santiago. Depois de subir o rio Ulla e desembarcar em Iria Flavia — local que hoje corresponde à cidade de Padrón —, Teodoro e Atanásio deram sepultura ao seu mestre. Não sem antes enfrentar as difíceis provas impostas pela pagã Rainha Lupa.

A primeira tumba do Apóstolo Santiago teria ficado em algum ponto indeterminado que, mais tarde, daria origem à atual cidade de Compostela. Sepultado no que conhecemos como a Arca Marmárica, o corpo de Santiago permaneceu sob os cuidados de seus discípulos. Após a morte deles, seus corpos foram enterrados junto ao do Apóstolo, e a tumba acabou sendo esquecida durante séculos.

A descoberta do Campus Stellae

Foram exatamente oito séculos até que a tumba voltasse a ser encontrada. Todos conhecemos a história de sua descoberta pelo eremita Pelágio, que vivia no monte Libredón. Corria o ano de 823 quando ele observou, durante várias noites umas luzes no céu apontando para um lugar. Intrigado com aquele estranho fenômeno, Pelágio decidiu avisar Teodomiro, bispo de Iria Flavia.

Juntos, dirigiram-se ao local indicado e encontraram a tumba primitiva do Apóstolo. Depois de comunicar a descoberta ao rei Alfonso II, o monarca realizou a primeira peregrinação da história. Ao confirmar o achado, ordenou a construção da Catedral de Santiago e que os restos de Santiago e de seus discípulos fossem ali depositados.

Com a notícia da descoberta do túmulo do Apóstolo em terras galegas, a basílica compostelana converteu-se em um importante destino de peregrinações vindas de toda Europa. Um fenômeno que se popularizou ainda mais em 1211, com a consagração da nova Catedral compostelana.

O temor dos ataques de Francis Drake

Parecia que, depois de tantas aventuras, o corpo do Apóstolo finalmente descansaria em paz. Mas não. A História ainda lhe reservava um novo capítulo. No século XVI, mais precisamente em 1589, o Cabido da Catedral tomou uma decisão incomum: esconder os restos mortais do santo.

O motivo era o temor de um ataque do corsário inglês Francis Drake. Como resposta inglesa ao fracasso da Armada Invencível, Drake havia atacado poucos meses antes a cidade de A Coruña, e acreditava-se que um de seus objetivos seria um dos centros da cristandade, como Santiago de Compostela.

Os restos do Apóstolo foram escondidos em um local secreto da Catedral. E ali permaneceram ocultos até o século XIX. Somente em 1879, quando o cardeal Payá decidiu iniciar uma busca não apenas para localizar os restos do Apóstolo, mas também para comprovar sua autenticidade.

Após um intenso trabalho de investigação, em 29 de janeiro de 1879 foram encontrados restos mortais em uma pequena capela localizada atrás do altar-mor da Catedral. Para os visitantes mais curiosos, ainda hoje é possível ver esse local. Ao subir as escadas que conduzem ao abraço ao Apóstolo, pode-se ver no piso da pequena capela à direita, um espaço retangular protegido por vidro. Ele marca o lugar onde as relíquias foram encontradas.

Após a descoberta, Payá encarregou diversos especialistas de elaborar um relatório científico que demonstrasse que aqueles ossos pertenciam realmente ao Apóstolo Santiago e aos seus discípulos. Em 1º de novembro de 1884, o Papa Leão XIII, por meio da bula Deus Omnipotens, confirmou como autênticos os restos encontrados. Ao mesmo tempo, convidou os católicos a peregrinarem até Compostela. E para incentivar esse movimento, declarou 1885 como Ano Santo Jubilar Extraordinário.

Após essa última aventura, os restos do Apóstolo passaram a ocupar um lugar privilegiado na Catedral de Santiago: a cripta situada sob o altar-mor. Sua visita é, juntamente com o abraço ao Apóstolo, um dos ritos mais populares entre os peregrinos e visitantes do templo.

 Versão para o Português: Bia Leis - Buen CaminoAssessoria Personalizada


Seu endereço de email não será publicado.
Os campos obrigatórios são marcados com *