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Hospitais de peregrinos no Caminho de Santiago

History of the Camino

Hospitais de peregrinos no Caminho de Santiago

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22-04-2021

Os hospitais de peregrinos são um dos símbolos do Caminho de Santiago. Nascidos na Idade Média para acolher e cuidar do peregrino que dirigia seus passos a Santiago, os antigos hospitais e hospedarias são os precursores dos atuais albergues.

A rede de hospitais criada ao longo do Caminho de Santiago chegou parcialmente até nossos dias. Em alguns casos, preservando sua função de acolhida e, em outros, como símbolo do património artístico e histórico que as Rotas Jacobinas geraram ao longo dos séculos.

Hoje vamos percorrer alguns dos hospitais de peregrinos mais importantes do Caminho Francês de Santiago. Tanto aqueles que já não existem mais, quanto os que ainda podemos desfrutar e, inclusive, nos hospedar neles.

Rede de acolhida e hospedagem

Os hospitais de peregrinos na Espanha nasceram na Idade Média como resultado da descoberta do túmulo do apóstolo e do apogeu das peregrinações a Santiago.

Sua principal função é a acolhida ao peregrino, assistindo aos enfermos, dando alojamento e, ocasionalmente, alimentação aos viajantes. A princípio, os hospitais foram fundados por reis, nobres e bispos, bem como por ordens religiosas e militares. Com o tempo, houve até mesmo alguns fomentados por associações de artesãos.

Entre todos eles, as ordens monásticas foram as principais promotoras dos hospitais de peregrinos, presentes nos próprios mosteiros, em construções próprias ou em edifícios localizados em locais distantes, mas dependentes da abadia.

Segundo várias fontes, a ordem monástica que dirigia o maior número de centros no Caminho de Santiago era a dos monges negros de San Benito, sendo seus maiores expoentes os hospitais de Leyre e Irache (Navarra), Carrión de los Condes (Palencia) e Sahagún (León).

Também vale destacar a importância das Ordens Militares na prestação de assistência hospitalar no Caminho. A primeira e mais importante foi a do Templo, que deixou sua marca em lugares como Puente la Reina (Navarra), Villalcázar de Sirga e Carrión de los Condes (Palencia), Rabanal del Camino e Ponferrada (León).

Hoje temos a sorte de preservar algumas dessas instituições, como o Hospital de San Marcos de León e o Hospital Real de Santiago, convertidos em Paradores de Turismo. Porém, muitos outros desapareceram ao longo da história.

Hospital Real de Santiago, actualmente Hostal de los Reyes Católicos

Antigo hospital de peregrinos em Santiago, hoje convertido no Parador del Hostal de los Reyes Católicos

O que na verdade permaneceu ao longo dos séculos, foi a existência de uma rede de acolhimento e alojamento no Caminho de Santiago, que hoje tem o seu maior expoente nos albergues, e como modelo da figura de quem cuida: o hospitaleiro.

Santa Cristina de Somport, o mais importante do mundo

Várias fontes situam o primeiro hospital de peregrinos da Espanha nas Astúrias. Especificamente, em Villarmilde, onde o rei Alfonso III teria mandado construir esta instituição, em 883, para acolher os peregrinos da primeira rota a Santiago: o Caminho Primitivo.

Quer se trate ou não do primeiro hospital da Espanha, podemos dizer que Afonso III foi um dos monarcas que promoveu a criação desta rede de assistência no Caminho de Santiago, que começou a se organizar e se desenvolver no século XI.

Já no século XII, o Códice Calixtino incluía em suas páginas alguns dos mais importantes centros de assistência que o peregrino poderia encontrar ao longo do Caminho Francês, e fazia referência aos três hospitais mais importantes do mundo: o Hospital de Jerusalém, que atendia os caminhantes que chegavam à Terra Santa; o de Mont-Joux, destinado a aqueles que se dirigiam a Roma cruzando os Alpes; e o de Santa Cristina, em Somport, entrada do Caminho Francês por Aragón.

Restos del hospital de peregrinos de Santa Cristina, en el alto de Somport

Ruinas do hospital de peregrinos de Santa Cristina, construído no topo de Somport (Aragón). Foto: Xacopedia

O hospital de peregrinos de Santa Cristina revela o esplendor que viveu o Caminho Francês por Aragón na Idade Média. Somport era a entrada natural do peregrino europeu na Espanha pela Via Tolosana. Uma entrada muito difícil que se realizava através dos Pirineus, daí a importância de se construir de um grande hospital de peregrinos.

Embora este hospital tenha se consolidado no século XII, sua origem remonta ao final do século XI. Hoje são preservados apenas vestígios de suas ruínas, no início da descida da montanha, já na parte espanhola.

De Roncesvalles a Santiago, passando por Burgos e León

O declínio do hospital de Santa Cristina ocorreu após a promoção real do Caminho Francês por Navarra. Esta nova rota de passagem de peregrinos pelos Pireneus levou à construção do Hospital de Roncesvalles, erguido no século XII para atender os caminhantes jacobinos.

O edifício original também desapareceu, mas os peregrinos que entram na Espanha por Navarra contam com outro hospital, desde o final do século XVIII, posteriormente ampliado e melhorado, que hoje é o albergue que faz parte da Colegiata de Roncesvalles.

Durante a Idade Média existiram outras instituições com especial relevância assistencial, especialmente no Caminho Francês. Entre eles podemos destacar o Hospital del Rey de Burgos, fundado no século XII pelo monarca Alfonso VIII de Castilla, para acolher os peregrinos. Foi um dos maiores do Caminho de Santiago e se tornou muito popular entre os caminhantes por sua fama de boa comida e bebida.

Hospital del Rey de Burgos, hoy propiedad de la universidad

Hospital del Rey de Burgos. Atualmente abriga dependências da universidade. Foto: Wikipedia.

Nele os peregrinos podiam ficar até três dias, tinha duas hospedarias (uma para homens e outra para mulheres) e confessores em todas as línguas. Hoje, abriga dependências da Universidade de Burgos.

Outra joia que conservamos até hoje é o Convento de São Marcos de León, no Parador Nacional. O edifício foi erguido no século XII, tornando-se um hospital-templo para refúgio dos peregrinos que faziam o Caminho de Santiago. O edifício também foi a residência principal, no reino de León, da Ordem de Santiago.

Além de seu valor para o Caminho de Santiago, o Parador de San Marcos é um dos monumentos mais importantes do Renascimento espanhol e sua fachada, um ícone do plateresco.

Este percurso pelos principais hospitais de peregrinos não poderia terminar em outra cidade senão Santiago de Compostela. Na mesma Praça do Obradoiro, a poucos metros da Catedral, encontramos o edifício que outrora foi o Real Hospital de Santiago, promovido pelos Reis Católicos.

Doentes e peregrinos estrearam o Hospital Real em 1509, que se tornou o maior e mais bem equipado dos hospitais do Caminho. O Real Hospital tinha as melhores e mais avançadas instalações da época, com médicos, assistentes e uma farmácia que atendia doentes e peregrinos em mais de meia dúzia de idiomas europeus.

Assim como o de León, o hospital de Santiago de Compostela é uma joia do plateresco e desde 1954 faz parte da rede de Paradores.

* Versão para o Português: Bia Leis - Buen Camino 


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